Leia aqui um trecho de "jicamaranga", de Fernando Maia:
Soando ruídos metálicos, homens de amplas espáduas, à foice afiada decepam, em golpes de ritmo incerto e altissonantes, os caules de gramíneas cujos grãos não se prestam a nenhuma economia, porque não alimentam ninguém, exceto avezinhas de cores variadas, algumas canoras, cujos cantos se avolumam aos piados de outras e a muitos outros ruídos: estaladas metálicas, ventos sibilantes, quedas e espirros aquosos, estampidos corpóreos, fragores vocais (mugidos, roncados, rosnados e berros e choros e gritos) e de outras matérias indefinidas, cujos objetos, com a violência implacável do ímpeto ou com a doçura afetuosa do afago, ambas até, atritam-se em música, perturbando o ar circundante com ondas de choque audíveis de perto e de longe, que adensam a atmosfera com miasmas de odor verde amaríssimo, que se misturam a outros vapores lúgubres e negros e úmidos, ora olorosos, ora inodoros, ora catinguentos e sempre coléricos. E sob um sol que ainda parteja, já escaldante, por trás de uns montes nem tão altos, em meio ao arrebol multicolorido e brumado da alvorada, tudo isso revela, numa agonia sinestésica, que o dia começa, sem se saber quando termina, muito cedo – fiat lux!
jicamaranga, de fernando maia
Fernando Maia nasceu no Recife em 1982 e nessa cidade reside atualmente. É bacharel em Ciências Sociais pela UFPE e é servidor do estado de Pernambuco. Tem dois livros publicados de maneira independente: Casos Recifenses (2014), um policial em que é apresentado o Investigador Scanoni e O livro das Violências Hiperbólicas (2019). Jicamaranga é o seu primeiro romance.