Leia aqui um trecho de "gabrielduartelândia", de Gabriel Duarte:
A diferença entre um futuro utópico e distópico
é uma linha tênue,
mas não invisível.
A ausência do dinheiro, o tempo livre, o ar puro,
utopia.
A depressão profunda e fome e solidão, distopia.
A integração entre humanos e insetos e hortaliças,
utópica.
O silêncio, pasmem,
distopia pura.
A falta de ruído deixa os tímpanos ociosos
e mexe com os
labirintos.
O silêncio dá tontura.
Planto goiabas no canteiro em frente a Fiesp,
Focado na tarefa
Sem emitir um pio.
Deve-se primeiro forrar
o chão com pedras,
pedregulhos,
cascalhos de árvores,
restos de pneus,
escombros de obras,
tijolos quebrados,
porta retratos destruídos
de famílias sumidas indigentes e esquecidas
para ajudar a água escoar sem mofar as raízes.
Faço tapetes de pedras por avenidas inteiras,
quilômetros e quilômetros a pé.
O joelho estala e as coxas ardem.
Em seguida, cobre-se as pedras
com uma manta fina de feltro.
Ao invés, uso lençóis imensos,
De milhares de fios
Importados do Egito
Ou algo assim.
Aí sim, joga-se a terra,
toneladas de terra úmida,
até que todo o asfalto
seja coberto por uma camada grossa,
para receber as sementes.
Faz 12 dias que eu não ingiro sólidos,
pães e grãos e enlatados.
Duas semanas também que não bebo
nada que não a água
que encontro em lojas de conveniência
no caminho entre uma muda e outra.
Também pudera,
a imagem de um deus bêbado
perambulando pelas ruas da cidade me apavora.
Distópico pra caralho.
Durmo pouco,
tal qual um recém-nascido,
com cólicas e fome.
Acordo na madrugada em alerta,
sem choro, porém.
E de uma forma ou de outra eu renasci.
A contragosto,
tal como um recém-nascido.
Me sinto exausto.
gabrielduartelândia, de gabriel duarte
Gabriel Duarte nasceu em 1987, em Maceió, e vive em São Paulo há 15 anos. Escreveu contos para diversas antologias e revistas literárias, e ano passado lançou seu primeiro livro “Seremos Ciborgues”. Além dos livros, produz quadrinhos independentes pelo instagram @osmonstrosdosvalesdesaturno.